Anônimo
O céu estava cinzento como sempre. Não havia ninguém na rua aquela tarde, e tudo parecia mais monótono do que o normal. ‘O que estava acontecendo?’, já estava caducando. Apertou os passos para chegar logo ao ponto. O ponto estava vazio. ‘Mas pudera, como esse tempo, quem se arriscaria a sair de casa?’ Só um tolo como ele.
Passou-se trinta minutos que havia chegado ao ponto, mas nenhum ônibus aparecia. ‘Acho que vou dormir na rua hoje’, ‘Não seria uma má ideia, não suportaria mais um escândalo daquela mulher por causa do meu atraso’.
Mais trinta minutos depois e ele continuava lá, suspirando e se encolhendo por causa do frio. Não poderia ficar ali pra sempre, decidiu andar. A distância era longa, mas caso o ônibus viesse, o pegava no caminho. Começou a andar, e em poucos minutos sentiu os joelhos fraquejarem. ‘Deus! Como estava ficando velho’. Decidiu parar um pouco e descansar.
O muro era alto e via-se que a casa que cercava era muito bela. Encostou-se no muro e nesse momento grossas gotas de chuva começaram a molhá-lo. Praguejou, agora estava ensopado. Sua mulher adoraria ver aquela cena. Talvez, quem sabe pudesse pedir uma carona. Bem, seu filho desaprovaria essa solução. Tinha medo de assaltantes. Mas já estava velho o bastante, o que poderiam querer dele além da bengala.
No canto da calçada já se formavam fundas poças de água. Vinha um carro mais adiante, decidiu lhe fazer sinal. O carro não parou, mas sim, jogou aquela água suja em cima dele. Praguejou, ‘onde Deus estava quando se precisava dele’. Continuou a andar, o que mais poderia fazer?
Passado alguns minutos depois, ouviu passos. Estavam seguindo ele, tinha certeza. Resolveu apertar mais o passo. O joelho gemia, mas ele não podia parar, estavam chegando perto. Virou à direita, todas as lojas já estavam fechadas. O céu escurecia, e a chuva já havia parado. Seguiu em frente e não olhou pra trás. ‘Vou ter que despista-los, vou leva-los para uma armadilha’.
Entrou em um galpão abandonado. Lixo em toda parte, mas ali executaria seu plano. Dirigiu-se para a parte superior. Continuava a ouvir os passos e estes estavam muito próximos. ‘Vocês não conseguiram me pegar, seus covardes’, ‘Só tentem e verão o que farei com vocês’. No chão havia várias barras de ferro, de tamanho e larguras diferentes. Atrás de uma pilastra se escondeu e esperou. Os passos cessaram, mas ele esperou. ‘Venham covardes, venham aqui para o velhinho, que irá te dar uma “paulada”’. Esperou e nada. Ele não ia perder seu tempo esperando o estúpido aparecer. Saiu de seu esconderijo, ouviu passos. Correu e correram atrás dele. Parou e pararam. Ele já se estava esgotando com toda essa brincadeira.
‘Malditos! Apareçam’. Virou-se, mas não havia ninguém. ‘Ora, ora, não pensava que fossem tão covardes assim’. Era hora de sair dali, estava com fome e sua esposa o esperava. Deu dois passos e os ouviu. Olhou, não havia ninguém. ‘Bom, agora é pra valer’. Começou a correr e não parou. Tinha que chegar a casa. Tinha que chamar a polícia. Que dia era aquele? Sexta-feira treze. Era de se esperar, coisas ruins acontecia nesses dias.
Estavam na sua cola e sua casa ficava a três quadras. Correu e correu. Estava sem fôlego, mas se parasse agora o pegariam. Dez minutos entrou pela porta de casa. Trancou-a, agora estava seguro. A casa estava silenciosa, sua esposa já devia estar na cama. Respirou e contou até dez.
Bateram na porta. ‘Meu Deus! Será que eram eles’. Devagar foi até a sala, pegou o atiçador da lareira e voltou-se para a porta. Quem quer que fosse, estava querendo lhe assustar, só podia. Perguntou quem é, mas bateram novamente. Perguntou novamente, mas bateram novamente. ‘Vou abri uma pequena brecha, só para ver a cara do infeliz’. Abriu uma pequena brecha.
Dois homens estavam parados lá. Ambos usavam ternos pretos. Um segurava um celular. ‘Senhor, poderia fazer o favor de nos acompanhar’.
Não, ele não iria, não conhecia aqueles homens. ‘O senhor acaba de invadir um terreno particular, e não tem permissão para fazê-lo’.
Como assim, aquela era sua casa, sua propriedade, seu terreno. ‘Engana-se senhor, está pisando em um carpete de uma casa de uma cidade cinematográfica’.
Não podia ser verdade, sua esposa dormia no quarto. ‘Senhor, poderia nos dizer o seu nome’.
Claro que não poderia, pensavam que ele era um idiota. O homem que falava no celular disse ‘Acho que me lembro desse cara, ele é o paciente do manicômio do outro lado da cidade’.
‘E como veio parar aqui?’. ‘Não sei, mas ele sempre faz isso’.
Fim
Por Helen Márcia